
Foto: Joubertt Telles/Itatiaia
Silenciamento: moradores do bairro Poço Rico são impedidos de se manifestar
Desde o fechamento da passagem de nível do bairro Poço Rico, a população busca formas de protestar suas insatisfações
Por Camily Cocati
Claudia Castilho, 37 anos, jornalista e moradora do bairro Poço Rico, alega que “Tudo Poderia ter sido diferente". O bairro residencial é historicamente conhecido por ser tradicional e próspero na cidade. Localizado a poucos minutos do centro, já existe há mais de 140 anos e se destaca pela vizinhança amigável.
Porém,a região sofreu uma grande mudança em Abril de 2025: a passagem de nível dedicada à passagem de carros pela linha do trem, que corta o bairro ao meio, foi fechada pela Prefeitura de Juiz de Fora. O fechamento ocorreu devido uma interpelação judicial do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes.
Por conta disso, a população da região sofreu grandes mudanças na rotina e na qualidade de vida. Os moradores entendem que o bairro foi dividido ao meio e por isso, os impactos foram muitos: a economia do bairro caiu, a mobilidade se tornou difícil, a locomoção passou a ser possível somente de carro, a limpeza e a segurança diminuíram. O bairro caiu em isolamento social.
O fechamento já havia ocorrido uma vez, em dezembro de 2020, porém, houve grande reação popular. “Paramos o trem por quase um dia inteiro”, contou Maria das Graças, aposentada de 70anos, que participou da primeira leva de protestos. Após a manifestação dos locais, a passagem foi reaberta. Até que, 4 anos depois, foi fechada novamente, de forma definitiva e sem qualquer aviso prévio à população.

Manifestação na linha do trem (Foto: Circuito Interno / MRS)
Questionada sobre a decisão, a assessoria Prefeitura de Juiz de Fora respondeu em email esclarecendo que: “conforme foi levado a público em abril, o fechamento da passagem de nível do Bairro Poço Rico aconteceu devido a uma intimação do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) determinando que a passagem deveria ser bloqueada sob pena de restituição total e corrigida dos valores gastos na construção do Viaduto Engenheiro Renato José Abramo. A passagem de pedestres sobre a linha férrea construída recentemente foi uma obra de responsabilidade da MRS.” Sobre a falta de checagem e comunicação com os moradores da região, a prefeitura não se pronunciou até o momento da produção dessa reportagem.
A advogada Bárbara Maciel, 32 anos, argumenta que a Constituição Federal garante autonomia aos municípios para tratar de assuntos de interesse local. Porém, quando se trata de infraestrutura ferroviária federal e de questões relacionadas à segurança operacional das ferrovias, a atuação do DNIT possui respaldo legal e técnico. “ Ainda assim, o município não é só espectador, ele pode dialogar com o órgão federal, apresentar estudos, demonstrar impactos sociais e buscar soluções que atendam às necessidades da comunidade sem comprometer a segurança exigida pela legislação”, alega a advogada.
Linha do tempo: como ocorreu o fechamento
Em uma matéria publicada pela Rádio Itatiaia, veículo de notícias, no dia 25 de outubro de 2025, é possível identificar a cronologia do fechamento:
No dia 21 de fevereiro entrou em vigor a inversão do fluxo de trânsito das ruas Pinto de Moura e Alagoas. Moradores reclamaram sobre a falta de informação e confusão na sinalização. Em nota, a Prefeitura alegou que as mudanças pretendiam "melhorar a fluidez do tráfego de veículos na região".
Cinco dias após as alterações, a Prefeitura anunciou que mudanças do trânsito seriam desfeitas após reunião com a comunidade do bairro. Já no dia 26 de abril, ocorreu o fechamento da passagem em nível que estava aberta para fluxo de veículos e pedestres.
A moradora Cláudia conta que após o segundo fechamento e tentativas de acordos, um morador encabeçou uma ação de manifesto. Após 5 meses do fechamento, a população se reuniu em manifestação em frente a linha, agora fechada. Porém, a reação da empresa responsável pela linha ferroviária, não foi a esperada. E no dia 08 de novembro, a MRS Logística proibiu as manifestações. Uma matéria publicada no portal Folha JF no dia 08 de novembro de 2025 aponta que: “A MRS Logística entrou na Justiça contra moradores do bairro Poço Rico, em Juiz de Fora, após uma série de protestos realizados sobre a linha férrea que corta a região. A empresa alegou risco à segurança dos manifestantes e prejuízos operacionais causados pela interrupção do tráfego ferroviário. Além disso, um dos moradores citados no processo foi apontado como organizador do protesto e poderá ser responsabilizado pelo pagamento da multa de R$10 mil caso haja descumprimento da liminar.”
Ainda segundo a advogada Bárbara Maciel: “Nenhum direito é absoluto". Ela alega que o direito de manifestação é uma garantia constitucional e constitui importante instrumento de participação democrática. Porém, em áreas ferroviárias, a legislação e os órgãos responsáveis devem buscar o equilíbrio entre a liberdade de manifestação e a preservação da vida, da integridade física das pessoas e da segurança operacional.
Em respostas aos questionamentos da reportagem, a assessoria de imprensa da MRS declara que: "Atendemos apenas demandas da imprensa”.

Manifestação na linha do trem do bairro Poço Rico | Foto (Fernando Gonçalves / @matheusbrumjornalista)
Paulo César Filho, aposentado de 66 anos, é morador do bairro e diz que os a população se sente abandonada. “Falta união do povo, temos que lutar”. O aposentado acredita que ainda há chance de mudar a realidade da região. Já Claudia, jornalista e moradora de 37 anos, acredita que a tendência é piorar a situação. Para ela, a previsão é que o bairro se torne cada vez mais desvalorizado, e vá se deteriorando. Ela lamenta, porque acredita que poderia ter sido diferente.
José Ricardo Motta Daibert, 67 anos, engenheiro, mestre em transporte e consultor de mobilidade urbana, argumenta que, em casos como esse, é necessário que sejam oferecidas alternativas seguras e eficientes para a população, como passarelas, viadutos, acessos controlados e melhorias na malha viária. A proteção da vida deve ser prioridade, mas sem desconsiderar os impactos na rotina dos cidadãos.
Apesar das tentativas e diálogos e manifestos, o futuro do bairro Poço Rico ainda é incerto. A população aguarda e torce para um acordo entre os órgãos públicos que viabilizem alguma solução viável para melhoria na qualidade de vida.