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Quem são os verdadeiros beneficiados com obras de mobilidade pública em Juiz de Fora?

Fez um ano que a passagem de carros foi fechada na linha do trem que corta o bairro Poço Rico e as consequências no bairro só aumentam

Por: Camily Cocati

“Eles viraram as costas para a gente”, disse Paulo César Filho, aposentado de 66 anos, nasceu e morou sua vida inteira na Rua Ceará, no bairro Poço Rico em Juiz de Fora. Seu pai viveu na região desde os 33 anos de idade e construiu uma família, que se mantém lá até hoje. Porém, muita coisa mudou nesse tempo.

O bairro fica localizado na Zona Leste de Juiz de Fora e já carrega mais de 140 anos de história. Ele nasceu como um núcleo operário ao redor da Estrada União & Indústria, fundada em 1861. De acordo com Luiz José Stehling, o nome vem do rio Paraibuna, que fazia uma grande curva naquele local, onde os pescadores encontraram muitos peixes. "Quando voltavam para a cidade, com as fieiras cheias, ao serem interrogados do local onde os tinham pescado, respondiam sempre: foi no Poço Rico de peixe [...]” – Trecho do livro “Juiz de Fora, A Companhia União Indústria e Os Alemães". O local também abriga o Cemitério Municipal, inaugurado em 1864, para evitar contaminação das vítimas da epidemia da doença bacteriana “Cholera morbus”. Isso influenciou ainda mais a movimentação na região. Mas foi só em em 1940 que o rio foi aterrado e se deu o asfaltamento completo do bairro. Já em 1950, um dos clubes mais tradicionais da cidade, o Tupynambás, consolidou sua nova sede no Poço Rico, onde viveu seu auge, sendo apelidado “Baeta” e "Leão do Poço Rico". Ele foi demolido em 2023 para a construção do mercado Assaí.

Mapa do bairro Poço Rico. Criado a partir de informações fornecidas pelo Google Maps na plataforma Notebook.LM.

Foi um pouco antes, em 1945, que os pais de Rogério Esteves, aposentado de 75 anos, chegaram lá. Ele conta que “Tudo era mato”, inclusive o prédio em que mora hoje com sua esposa, Maria das Graças, também aposentada de 70 anos. O casal se conheceu no baile de ano novo do Clube Tupynambás, se casaram e criaram seus dois filhos, Carlos e Cláudia, no Poço Rico. A família cresceu, os filhos se casaram e o Rogério e Dona Graça, ganharam duas netas, Maria de 3 anos e Joana de 2. Mas, nem tudo mudou, todos continuam morando no mesmo bairro. Durante 31 anos, eles estiveram à frente do famoso Clube da Gota, tradicional lanchonete que fica na mesma rua em que moram.

Rogério e César, vizinhos, brincam de “quem é o mais velho no bairro”. Eles se conhecem a vida toda e fazem parte de uma comunidade com muitas outras histórias. “Tá tudo aqui, minha vida inteira”, disse César, alegando ainda que todo mundo se conhece e são unidos.

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Paulo César, morador do Poço Rico. Créditos: Camily Cocati

Maria das Graças e Rogério, moradores do Poço Rico. Créditos: Camily Cocati

Mas por que isso aconteceu?

Em depoimento do dia do fechamento, a atual prefeita de Juiz de Fora, Margarida Salomão, esclarece que o fim da passagem estava estabelecido em um contrato de 2011, entre a prefeitura da época e o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) como condição para a construção do viaduto professor Renato José Abramo. Foi em Dezembro de 2020 que o fechamento ocorreu. Já a reabertura, por meio da prefeitura, em fevereiro de 2021.

Durante 4 anos, a passagem ficou aberta, porém, no dia 25 de Abril de 2025, a PJF publicou em seu site: “O Município recebeu, em 27 de março passado, uma intimação do DNIT estabelecendo que a passagem deveria voltar a ser bloqueada até o próximo dia 26 de abril, sob pena de restituição do total do valor investido na construção do viaduto, com correção monetária e multa correspondente”.

Em um primeiro momento, a mudança era pra ser positiva, como alega o ex-prefeito Bruno Siqueira em uma declaração de 2016, quando as obras do viaduto foram iniciadas: “Com isso, (as obras) desafogaram o trânsito do Centro da cidade. Essas quatro obras contribuem muito para a mobilidade de Juiz de Fora", mas o resultado relatado pelos moradores do bairro não é esse. De acordo com o engenheiro, mestre em transporte e consultor de mobilidade urbana, José Ricardo Motta Daibert, de 67 anos, a construção de viadutos pode ser contraditória. Existem benefícios, como a melhoria do fluxo de veículos, redução do tempo de deslocamento e conexão de áreas antes separadas. No entanto, existem impactos negativos, como o desestímulo à mobilidade ativa, prejuízos a pedestres e ciclistas, poluição visual e soluções apenas pontuais para problemas estruturais de trânsito.

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Imagens retiradas da plataforma Google Maps mostrando a evolução da linha do trem. Foto 1: 2022 | Foto 2: 2025

Para Paulo César, Rogério e Dona Graça os moradores não ganharam nada, só perderam. Os problemas que surgiram foram muitos. Entre eles, há a dificuldade de mobilidade, uma vez que, para atravessar a linha do trem agora, você deve passar pelo viaduto, que acumula muito trânsito. “A escola das minhas netas é do outro lado da linha, por serem duas crianças, é melhor ir de carro, mas dá muito mais trabalho, antes era só atravessar", alega Graça.

Além disso, outros moradores relatam a diminuição na circulação de veículos e pessoas, que prejudicou muitos comércios. Os serviços públicos também caíram de qualidade; a limpeza urbana e policiamento são exemplos disso. 

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José Ricardo ressaltou que a falta de participação popular no planejamento de viadutos é indispensável e sua falta pode gerar muitas questões. “ O caminho correto seria apresentar para a população um projeto, depois reajustados para a população. Quando os projetos não consideram os usuários reais acabam contribuindo para a segregação urbana. Na opinião dele, esse é um exemplo de que os bônus não compensaram os ônus.

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